LIBRAS, VISUALIDADE E PODER ESCOLAR: DESLOCAMENTOS TEÓRICOS DA INCLUSÃO NA EDUCAÇÃO DE SURDOS
Palavras-chave:
Educação Inclusiva, Surdos, Libras, Inclusão Escolar.Resumo
A educação inclusiva tem se consolidado como paradigma ético, político e epistemológico no campo educacional brasileiro, especialmente no que se refere à escolarização de estudantes surdos. Sob uma perspectiva sociocultural, a surdez é compreendida não como deficiência, mas como diferença linguística e cultural, organizada pela experiência visual e pela língua de sinais. Nesse contexto, a Libras assume centralidade como língua plena e direito linguístico, tensionando práticas escolares historicamente baseadas na homogeneização. No desenvolvimento teórico, evidencia-se que a inclusão se diferencia da integração, pois não pressupõe a adaptação do estudante ao modelo escolar previamente instituído, mas a transformação das concepções pedagógicas e das práticas educativas da própria escola. A presença de estudantes surdos no ensino comum demanda reorganizações curriculares, metodológicas e epistemológicas, com valorização do bilinguismo e da visualidade como eixos centrais do processo de ensino e aprendizagem. Destacam-se, ainda, os desafios relacionados à formação docente, frequentemente insuficiente para atender às especificidades linguísticas e culturais da educação de surdos, bem como as limitações das práticas pedagógicas centradas na língua portuguesa oral e escrita. Nas considerações finais, conclui-se que a inclusão de estudantes surdos na escola comum exige transformações que ultrapassam adequações técnicas, curriculares ou legais. Trata-se de um compromisso ético e político com a democratização da educação, que reconheça a Libras, a visualidade e a cultura surda como dimensões constitutivas do espaço escolar, reafirmando a diferença como princípio fundante da escola inclusiva e do direito à educação para todos.
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