ENTRE A MEMÓRIA E O SILÊNCIO
A EXPERIÊNCIA ESCOLAR DE CRIANÇAS HAITIANAS EM CONTEXTOS DE DESLOCAMENTO
Resumo
Este artigo investiga o percurso escolar de crianças haitianas em contextos de deslocamento forçado, com foco nas relações entre memória, silêncio e subjetividade. O estudo parte da constatação de que, diante de crises sociais, políticas e ambientais recorrentes no Haiti, inúmeras famílias se veem obrigadas a migrar internamente ou para países vizinhos, afetando profundamente o percurso educacional das crianças. Justifica-se a pesquisa pela lacuna existente quanto à escuta das vozes infantis haitianas nesse processo e à função da escola como mediadora das marcas do exílio. O objetivo é compreender como essas experiências escolares revelam os impactos do deslocamento na constituição das subjetividades e das memórias coletivas das crianças. A metodologia adotada é qualitativa, baseada em revisão crítica da literatura haitiana e internacional, além de análise documental sobre deslocamento, infância e educação em contextos de crise. O referencial teórico articula Paul Ricoeur (2007), com suas reflexões sobre memória e esquecimento; Georges Didi-Huberman (2012), ao abordar a imagem e a resistência; e autores haitianos como Lyonel Trouillot (2015) e Jean-Claude Martineau (2018), que tratam do exílio como componente central da experiência haitiana. Os resultados apontam que a escola pode funcionar tanto como espaço de apagamento quanto de resistência simbólica, sendo palco de narrativas de silêncio, ruptura e reconstrução de pertencimentos. Conclui-se que a experiência escolar dessas crianças é permeada por marcas do trauma, mas também por estratégias de ressignificação, e que reconhecer essas dinâmicas é essencial para pensar políticas educacionais mais sensíveis às realidades do deslocamento e à escuta das subjetividades infantis.
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